Analisando a Depressão

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O trabalho com saúde mental em clínica psiquiátrica é constantemente desafiador. As pessoas, por estarem em situação de internação, encontram-se debilitadas e muitas vezes desesperançosas quanto à possibilidade de mudanças. E um dos quadros que mais geram dificuldades de reabilitação, por exigir como princípio a crença de em um futuro melhor, é a depressão.

Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a depressão é a condição psiquiátrica mais comum no mundo hoje e será a patologia mais comum entre todas as existentes até 2030 – apesar de muitos diagnósticos serem realizados de forma equivocada, essa ainda é uma realidade muito próxima ou esse dado ainda é muito marcante.

Mesmo sendo tratada como uma condição única, a verdade é que há vários tipos de depressão. A similaridade entre todos os tipos da doença está na “presença de humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade de funcionamento do indivíduo”*.

Em suma, a depressão causa um adoecimento do corpo e da capacidade de avaliar o mundo, o portador do transtorno costumeiramente encontra-se prostrado e sem disposição, podendo descuidar-se da aparência, saúde e higiene. Há uma crença de que não há saída para a situação em que se encontra e de que mudanças não aliviarão o sofrimento vivido.

Os causadores de tal adoecimento podem ser desde uma disfunção orgânica a um desamparo aprendido pelas experiências de vida, passando por problemas de tensão pré-menstrual e por uso de medicamentos ou substâncias psicoativas.

Dentre as formas de explicar a depressão, um modo em especial vale ser comentado: o modelo comportamental. Esse modelo foi estudado em mamíferos e parte do pressuposto de que eliminadas as alternativas para se evitar o sofrimento e produzir consequências positivas associadas aos atos realizados, os animais tendem a entrar em processo de um desamparo aprendido. Em humanos, pode ser resumido ao fato de passar a haver sensação de que nada que é produzido tem valor.

Outra forma de se analisar a doença é pela via do insuportável. Essa maneira de enxergar o problema passa pela quebra da crença infundada de que o homem deve buscar a felicidade a todo custo. Sendo assim, ao se deparar com o sofrimento como algo inevitável e intrínseco à vida, há o adoecimento pela inabilidade para suportar o novo paradigma.

Lidar com pacientes com depressão exige muita paciência e cuidado. Por serem pessoas com grande insensibilidade para os estímulos motivacionais oferecidos, como elogios ou qualquer tipo de recompensa gerada por seus comportamentos, tendem a causar mal estar e adoecimento nos cuidadores, desde os acompanhantes que auxiliam nas atividades práticas aos terapeutas e médicos. A desmotivação para cuidar mesmo das necessidades mais básicas e a falta de esperança os deixam resistentes aos mais diversos tipos de terapia e atividades recreativas e ocupacionais, pois nada parece fazer muito sentido. Mesmo com a presença de antidepressivos, muitos dos pacientes não apresentam melhoras, pois o adoecimento pode vir da falta de percepção de sentido na vida.

Desta forma a psicoterapia consiste em abordar dois aspectos do comportamento: as práticas cotidianas e a resolução do problema tido como insuperável. Para tanto, a retomada das atividades básicas desde o cuidado com a higiene é fundamental. O adoecimento leva à perda de rotinas essenciais à saúde mental e à organização da própria vida. Ocorre um tipo de estado de inércia, em que a tendência de quem está parado é manter-se parado. Por isso, e por ajudar a modificar toda a química corporal através da liberação de substâncias como endorfina e redução da presença de cortisol, a inclusão das tarefas rotineiras de exercícios físicos é imprescindível, mesmo que aconteça de forma mecânica no início. Somado a esse aspecto prático, o tratamento deve abordar os traumas passados e rever o sentido da vida promovendo a obtenção de prazer na realização de pequenas metas de vida que são progressivamente aumentadas são formas de aprimorar o processo de tratamento.

A retomada da vida é um processo lento e passível de recaídas por ter de ser incentivada diariamente em um quadro no qual o portador é passivo no começo do tratamento. É preciso ter em mente que a depressão, por mais que seja incapacitante, é passível de tratamento. Depende muito da compreensão dos familiares de que não é simples desinteresse ou falta de vontade, mas que há um adoecimento real e exige muita calma de quem se propõe a cuidar, exigindo em diversos casos, que os próprios cuidadores busquem acompanhamento para lidar com a situação.

*DSM 5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Psicólogo Clínico, Analista do Comportamento e especialista em Transtornos Mentais e Dependência Química.
CRP 16/2794