Conhecendo o Papel do Psicólogo

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Muitas das pessoas que procuram terapia não sabem muito bem o que esperar do terapeuta. Ele vai ser uma espécie de amigo? Um conselheiro, um orientador? Sábio da montanha ou guru? Ou vai ser aquele que a família contratou apenas para repassar as ordens com um tom de autoridade por estar apoiado por detrás de um saber científico? Alguém que usa de técnicas de persuasão apenas para direcionar as pessoas em prol de uma moral pautada em seus próprios princípios?

Uma maneira mais fácil de compreender a função do terapeuta é pensando nele como um companheiro de caminhada. Porém, esta caminhada se chama vida. Portanto, cabe desde então entender que há sempre uma relação de troca e ambos aprendem ao longo do percurso. As atitudes do psicólogo impactam na vida do paciente e vice-versa. O psicoterapeuta analisa junto ao cliente sua história de vida de forma a empoderá-lo de meios para mudar seus rumos e ressignificar suas experiências, seguindo caminhos possivelmente diferentes. E a troca de informações, bem como as ações tomadas pelo paciente, interferem diretamente no psicólogo por haver todo um engajamento dele, se dedicando totalmente ao processo de transformação. Como ambos devem estar inteiros na relação, o aprendizado é mútuo. Ao menos é o que ocorre quando o processo terapêutico é autêntico, ou seja, possui um contrato selado pelas duas partes.

Mas se a relação entre terapeuta e cliente é horizontal, ou seja, não há aquele que ensina e aquele que aprende unilateralmente, então para que procurar esse tipo de profissional?

Irwin D. Yalom escreve em seu livro Desafios da Terapia que a função do psicoterapeuta é a de remover os obstáculos do paciente. Isso significa assumir que o psicólogo é dotado de estudos e experiências na análise de fatores que interferem na vida de cada um para que possa trazer tais questões à luz, facilitando tomadas de decisões. A proximidade emocional com a situação e a falta de habilidades do paciente de conectar as informações da sua vida em uma rede de causalidade dificulta a percepção dos entraves cotidianos. Para além da capacidade de analisar os obstáculos, ao psicólogo cabe, muitas vezes, o treino de habilidades: desde as reflexivas até as práticas. O terapeuta deve auxiliar na construção do processo de autoanálise e no aprendizado por dicas e aprimoramentos consecutivos de comportamentos. Ou seja, perceber pontos fortes, pontos a melhorar e a auxiliá-lo com isso e até descobrir habilidades que o paciente tem, mas que são pouco ou até mal utilizadas, às vezes por serem empregadas em situações não apropriadas ao desenvolvimento (como um sujeito que tem bom trato com outras pessoas, mas trabalha fazendo serviços burocráticos de forma isolada). E tudo isso de forma ativa, mas sem dar ordens e sem tomar decisões pelo cliente.

Outro motivo para buscar um terapeuta é o de obter um local para compartilhar seus maiores medos e segredos sem receios de ser julgado ou mesmo sem ser podado de dizer o que pensa; até porque muitas pessoas chegam à terapia carregando sentimentos de culpa há muito enraizados e que de nada acrescentam para a construção de autoestima. Essa qualidade de uma audiência acolhedora não é algo encontrado em qualquer lugar e requer treino do terapeuta para lidar com suas próprias questões, deixando-as de fora da análise para colocar-se no lugar de seu interlocutor e tentar raciocinar a partir de suas experiências ao longo da vida – não que os psicólogos não sejam afetados por algumas questões, eles apenas aprendem a evitar que isso tome o espaço terapêutico de forma a se resolver com a questão fora do set de análise. Para haver autoaceitação de pessoas que se sentem inferiores ou culpadas, por exemplo, é importante o exemplo externo para mostrar que aquela pessoa pode ser aceita de forma incondicional. O paciente só se sentirá verdadeiramente acolhido de forma diferenciada se essas condições forem cumpridas.

Por fim, o aprendizado da terapia passa pela compreensão de que os caminhos, os objetivos intermediários e a velocidade com que queremos chegar aos nossos propósitos de vida, muitas vezes não se correspondem. Muitas vezes queremos buscar atalhos para chegar logo à meta, mas a jornada é tão importante quanto o objetivo. No clássico da literatura O Mágico de Oz, é a caminhada que fornece a cada personagem a realização do seu desejo, e não o mágico em si. E como vivemos em uma sociedade que demanda cada vez mais velocidade, precisão e controle, dedicar-se a uma jornada sem tempo limitado e sem o controle total do destino e dos meios para concretizar os sonhos finais, deixando isso nas mãos de alguém que confiamos e que reafirma a cada sessão essa confiança depositada, pode ser melhor caminho para desenvolver o autoconhecimento; e este é a chave para autorrealização.

Psicólogo Clínico, Analista do Comportamento e especialista em Transtornos Mentais e Dependência Química.
CRP 16/2794