Desmistificando a Dependência Química

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O problema da dependência química é amplo e constantemente abordado na mídia e em conversas informais. E apesar do grande conteúdo de informações gerado acerca do assunto, pouco a população parece compreender sobre tema, e acaba se propagando muito preconceito e desinformação. Cabe então esclarecermos um pouco os mitos que circundam o mundo das drogas. Mas antes, uma breve explicação sobre o que é dependência química.

Beber apenas em ocasiões festivas, fumar maconha com os amigos em algumas situações não faz de uma pessoa uma dependente. Para ser dependente químico é necessário cumprir alguns requisitos quem envolvem: aumento substancial da dose e/ou frequência do uso da droga; sofrer crise de abstinência (crise pela falta de uso); sofrer danos físicos (saúde), sociais (relação com amigos e familiares), econômicos (gastos excessivo com drogas) ou no trabalho (faltas ou queda de produtividade); e procura crescente pela droga apesar de observar os danos causados por ela. Qualquer uso pontual e esporádico é considerado uso recreativo. Apresentada a dependência como uso nocivo e frequente, vamos aos mitos.

Um dos erros mais frequentemente associados aos dependentes é que eles apresentam um desvio de caráter. O meio em que os dependentes se envolvem e as formas mais variadas a que se engajam para obter a droga podem ser degradantes e as pessoas podem perder a noção de alguns de seus princípios norteadores. Mas não sejamos moralistas: acusar as pessoas de serem inescrupulosas de forma indiscriminada é perpetuar preconceitos. O vício atua em uma área específica do cérebro responsável pela sensação de prazer. Dependendo da intensidade e frequência do uso e/ou da droga utilizada (crack é sempre mais complicado) é difícil produzir uma sensação de prazer similar a das drogas nas atividades do dia a dia, e assim, difícil cessar o uso. O foco passa a ser então conseguir manter o consumo para voltar a sentir o mínimo de prazer e evitar o mal estar da falta da droga. E para isso as pessoas se permitem fazer coisas que duvidam. É um processo de adoecimento, não uma questão deperversidade.

Outra questão frequentemente associada aos usuários é que não param o uso por “falta de vergonha na cara” ou desinteresse (falta de engajamento). Como visto no ponto anterior, a dependência química é uma doença, e crônica. Toda doença crônica não tem cura, mas tem tratamento. Só que o tratamento para acabar com a adicção depende de muitas mudanças no estilo de vida da pessoa, e muitas não conseguem lidar bem com isso. Para se manter em abstinência – finalidade de todo tratamento eficaz para a dependência química – é necessário muitas vezes mudar amizades, ambientes que frequentava, e aderir a novos projetos e objetivos de vida. Essa mudança de hábitos é necessária porque muitos fatores do ambiente (lugares, cheiros, pessoas, comportamentos,…) podem evocar sensações e atitudes associadas aos momentos de uso; e muitas pessoas não conseguem lidar com esses estímulos. Eles costumam mexer com o circuito do prazer e gerar a crise de abstinência. Isso gera um comportamento impulsivo (característico dessa doença crônica) da busca pela droga, a recaída.

E é por causa das recaídas recorrentes dos dependentes que muitos dos familiares param de acreditar no tratamento e passam a achar que ele não é válido. Como dito antes, essa é uma doença crônica, e para tanto a dedicação deve ser grande. A NIDA – NationalInstituteofDrug Abuse – explica que a eficiência para o tratamento da dependência química é o mesmo que para outras doenças do mesmo tipo, como asma, diabetes e hipertensão. Infelizmente, as drogas atraem mais atenção por envolverem problemas de comportamento como o envolvimento com o crime, por exemplo. E como há muito preconceito, discriminação e humilhações voltadas aos usuários, há uma dificuldade grande quanto à adesão ao tratamento. O trabalho deve ser voltado também para os familiares que não sabem como reagir e adoecem também no processo, além de afastar os usuários.

É importante compreender melhor como funciona a dependência química para facilitar o acesso ao tratamento, acabar com a discriminação e evitar que mais pessoas se tornem adictas. Todos os dependentes começaram essa história com o uso recreativo. Ninguém que inicia o uso de drogas imagina um dia ter problemas para sair desse processo, apenas ficam maravilhados com a sensação de prazer adquirida no início.Só com informação será possível mudar o rumo dessa história.


Nota: Vão aqui, para enriquecimento das informações, os critérios diagnósticos  do Cid 10 e do DSM IV -TR (não foi utilizado o DSM V por ser específico para cada substância)
CID 10
O diagnóstico de dependência deve ser feito se três ou mais dos seguintes critérios são experienciados ou manifestados durante o ano anterior:
1 – Um desejo forte ou senso de compulsão para consumir a substância.
2 – Dificuldades em controlar o comportamento de consumir a substância em termos de início, término ou níveis de consumo.
3 – Estado de abstinência fisiológica, quando o uso da substância cessou ou foi reduzido, como evidenciado por: síndrome de abstinência característica para a substância, ou o uso da mesma substância (ou de uma intimamente relacionada) com a intenção de aliviar ou evitar os sintomas de abstinência.
4 – Evidência de tolerância, de tal forma que doses crescentes da substância psicoativa são requeridas para alcançar efeitos originalmente produzidos por doses baixas.
5 – Abandono progressivo de prazeres ou interesses alternativos em favor do uso da substância psicoativa: aumento da quantidade de tempo necessária para obter ou tomar a substância ou recuperar-se de seus efeitos.
6 – Persistência no uso da substância, a despeito de evidência clara de consequências manifestamente nocivas, tais como dano ao fígado por consumo excessivo de bebidas alcoólicas, estados de humor depressivos consequentes a períodos de consumo excessivo da substância, ou comprometimento do funcionamento cognitivo relacionado com a droga: deve-se procurar determinar se o usuário estava realmente consciente da natureza e extensão do dano.
DSM IV-TR
Um padrão mal adaptativo de uso de substância, levando a prejuízo ou sofrimento clinicamente significativo, manifestado por três (ou mais) dos seguintes critérios, ocorrendo a qualquer momento no mesmo período de 12 meses:
1 – Tolerância, definida por qualquer um dos seguintes aspectos:
     (a) uma necessidade de quantidades progressivamente maiores da substância para adquirir a intoxicação ou efeito desejado
     (b) acentuada redução do efeito com o uso continuado da mesma quantidade de substância
2 – Abstinência, manifestada por qualquer dos seguintes aspectos:
     (a) síndrome de abstinência característica para a substância (consultar os Critérios A e B dos conjuntos de critérios para Abstinência das substâncias específicas)
     (b) a mesma substância (ou uma substância estreitamente relacionada) é consumida para aliviar ou evitar sintomas de abstinência
3 – A substância é frequentemente consumida em maiores quantidades ou por um período mais longo do que o pretendido
4 – Existe um desejo persistente ou esforços malsucedidos no sentido de reduzir ou controlar o uso da substância
5 – Muito tempo é gasto em atividades necessárias para a obtenção da substância (por ex., consultas a múltiplos médicos ou fazer longas viagens de automóvel), na utilização da substância (por ex., fumar em grupo) ou na recuperação de seus efeitos
6 – Importantes atividades sociais, ocupacionais ou recreativas são abandonadas ou reduzidas em virtude do uso da substância
7 – O uso da substância continua, apesar da consciência de ter um problema físico ou psicológico persistente ou recorrente que tende a ser causado ou exacerbado pela substância (por ex., uso atual de cocaína, embora o indivíduo reconheça que sua depressão é induzida por ela, ou consumo continuado de bebidas alcoólicas, embora o indivíduo reconheça que uma úlcera piorou pelo consumo do álcool).
Psicólogo Clínico, Analista do Comportamento e especialista em Transtornos Mentais e Dependência Química.
CRP 16/2794