A Deturpação da Felicidade

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Outro dia um paciente disse a seguinte frase no começo de uma sessão de psicoterapia: “ser feliz é fundamental”. Ele lera a frase em uma mensagem motivacional enviada para ele e se questionava sobre ela, chegando a dizer que não achava que isso era o fundamental. Conheço muitas pessoas para quem a postura desse paciente pode ser estranha, o que já faz valer uma pequena reflexão sobre o tema da felicidade.

Um conceito que ainda vejo muito difundido em nossa sociedade é o de que a felicidade é um objetivo de vida, entendido como sendo um estado de humor duradouro ao qual devemos atingir. Sendo assim, existem supostos meios e fórmulas para se alcançar tal finalidade: dinheiro, vida saudável, relacionamento amoroso, substâncias psicoativas, comida, sexo, entre outros. Quando essa realização baseada nesse sentimento é um fim em si, e um fim aparentemente tão nobre, não vale qualquer coisa para ser feliz? E é nesse exato momento, quando a felicidade é uma meta e que tudo vale para chegar a ela é que ela se desvirtua.

Em nossa organização social, criamos ideologias objetificadas que dificultam a captação da essência das coisas. Trocando em miúdos: ao estipularmos metas e transformá-las em objetos de desejo acabamos por perder o real valor que elas têm. No caso desse sentimento em especial, passamos a perder os momentos em que ele se faz presente nas pequenas coisas da vida, nos momentos mais cotidianos e que é quando costuma nos trazer a satisfação tão almejada.

A questão aqui é a dificuldade construída por nossa sociedade de maneira geral em lidar com a perspectiva de que esse estado de plenitude não seja um fato e de termos de viver com o sentimento de forma diluída ao longo de nossa breve existência e dependendo muito da qualidade com que vivenciamos nossas experiências. Ocorre, em diversos casos, de contarmos em gotas os momentos felizes em um deserto que anuncia sua escassez. Isso por si só já atrapalha a experiência de diversas situações da vida e as marca como insuficientes, pois o foco não são as experiências, e sim a falta que ela deixa em termos de frequência e duração.

Sendo assim, então, o que é felicidade e como obtê-la? Essa pergunta já parte de um pressuposto equivocado: o de que podemos ter posse de uma emoção. Um sentimento surge de uma relação e tem sua duração associada ao momento – podendo ser rememorado. A ideia aqui é de que se tirarmos de foco a obtenção da felicidade, a vida terá de passar por outros caminhos, e a felicidade será sentida de forma mais leve e até mais constante por ocorrer de forma natural.

Não há fórmulas para atingir esse estado, pois todas elas são enviesadas e deturpam o sentimento em si ao tentar prolongá-lo. Quando repetimos à exaustão uma situação tentando manter um estado de emoção, nosso corpo se adapta e passa a ser necessário um esforço muito maior para obter o mesmo grau de satisfação. Ou seja, nos distanciamos de nossos objetivos. Esse é o princípio de um vício.

Quando aquele meu paciente falou que a felicidade não era o fundamental para a vida, ele compreendeu que ela não deve ser um objeto de adoração, uma meta a ser batida. Não. Ele aceitou que a felicidade é um meio que permeia a vida tanto quanto os demais sentimentos. Ele aceitou levar uma vida pautada por uma ética de aceitação dos limites e das responsabilidades inerentes às nossas ações e à vida. E muito disso eu pude observar do seu desenvolvimento em terapia, pois é um paciente em tratamento para dependência química quem tem descoberto que qualquer coisa do qual ele tomou posse ou definiu como objeto de desejo ao longo de sua história, ele passou a ter uma relação deturpada de vício.  O que ele aprendeu é que não há fórmulas para ser feliz, pois muitas vezes o que atingimos são imagens irreais desses sonhos e não perdemos de sua essência.

Portanto, duvide de discursos absolutos. Eles tendem a ser, no mínimo, equivocados. A vida é equilíbrio de forças. E como bem mostrou a animação Divertida Mente – que mostra de maneira lúdica a nossa relação com nossas emoções –, não dá par ser feliz o tempo todo; e aprender a lidar com os outros sentimentos é essencial para superar diversas dificuldades ao longo da vida.

 

Psicólogo Clínico, Analista do Comportamento e especialista em Transtornos Mentais e Dependência Química.
CRP 16/2794