Discutindo as Mudanças

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Outro dia, em uma das redes sociais que participo, deparei-me com uma imagem que mostrava pipocas e continha a seguinte mensagem: “As mudanças ocorrem de DENTRO pra fora”, e achei que caberia discutir um pouco o assunto.

Essa imagem é do tipo que desperta muitas reflexões sobre a forma como as mudanças ocorrem. Pode parecer óbvia a transformação inerente do milho em pipoca, mas antes de nos dispormos a refletir sobre o significado que pode existir nessa cena, façamos um experimento. Imagine colocar milhos de pipoca em um recipiente translúcido contendo nada além dos milhos e guardar longe de qualquer fonte de calor (inclusive do sol). Quanto tempo você acha que levará para o milho virar pipoca? Se você pensou que esse tipo de acontecimento não irá ocorrer, acertou. Provavelmente o milho apodrecerá com o tempo, mas não se transformará em pipoca. Vamos tentar compreender a ausência da mudança esperada.

Agora imagine se você colocar o milho em um recipiente metálico e o expuser a uma fonte de calor. Quem já fez sabe o que acontece: o milho vira pipoca.

O que podemos retirar das duas situações é que a mudança de milho em pipoca não ocorre apenas por causa do milho. Se fosse assim, o mesmo mudaria para pipoca sempre, inclusive no próprio milharal. Mas não foi isso que ocorreu. O grão necessitou de um recipiente bom condutor de calor e de uma fonte de calor para que a transformação ocorresse. O calor é uma fonte externa ao milho e, portanto, o exemplo da pipoca como uma mudança que ocorre de dentro para fora carece de análise mais ampla relacionada à combinação de fatores internos e externos.

É claro que o milho possui fatores próprios de sua composição que fazem com que ele, e não uma bolinha de gude ou uma manga, transforme-se em pipoca. Logo, há algo próprio da constituição deste cereal que é essencial para que possa virar pipoca, mas tal mudança não se faz por si só. Apenas a constituição molecular do milho, associada a fatores ambientais podem transformá-lo em pipoca. E o que ocorre com as pessoas é algo similar: a constituição física do indivíduo, associada às suas experiências pessoais e suas interações sociais desempenham os papéis de interação e integração que são essenciais para promover mudanças. E mesmo assim, muitas vezes as variáveis do ambiente são muito sutis, e temos impressão de que apenas a vontade interna é que causa a mudança. Porém isso acaba sendo um pensamento equivocado.

Um problema comum que pode surgir desse tipo de pensamento, o de que apenas uma vontade interior pode trazer todas as mudanças necessárias para a sua vida, é a de que o mundo pode ser enxergado como uma dicotomia de vencedores e perdedores. Os vencedores seriam os que conseguem se motivar e mudar de vida; muitas vezes são os exemplos que vemos de superação: pessoas que saíram “do nada” para atingir o sucesso. Os perdedores são todos os outros que não conseguiram atingir tal padrão e se queixam das injurias do mundo.

A questão é um pouco mais complexa que esses modelos polarizados. Existem diversos fatores relacionados à história de vida de cada um, com seus aprendizados, educação e criação, relações sociais diversas e mesmo a compleição física, que são diferenciais para a forma como nos desenvolvemos. Os discursos de palestras e livros motivacionais minimizam esses fatores correlacionais e focam na vontade interna como sinônimo de tomada de decisão. Porém, até mesmo tomar decisões e resolver problemas parte da organização de todos os fatores associados: é um aprendizado. É possível aprender a fazer algo novo, mas não apenas por simples querer ou vontade. Para colher laranjas você precisa ter todo um terreno com nutrientes e condições climáticas favoráveis para a plantação da fruta, além de ter as sementes dela. Não é plantando sementes de mamão, ou semeando em um deserto que você irá colher laranjas.

Não quer dizer, então, por a vontade interna não ser um processo exclusivamente interno do nosso organismo, que não podemos mudar, ou que é mais difícil a mudança. A ideia aqui é eliminar as crenças danosas sobre a força de vontade ser a saída para tudo. Persistência, gana, disciplina e dedicação não são formadas apenas com força de vontade, mas através de um grande aprendizado que correlaciona as experiências vividas por cada um de nós. Quando compreendemos como nossas decisões foram tomadas até determinado momento de nossas vidas podemos mudar o que nos desagrada.

Psicólogo Clínico, Analista do Comportamento e especialista em Transtornos Mentais e Dependência Química.
CRP 16/2794