Encontrando equilíbrio entre extremos

download

Nos últimos meses tenho me dado conta do quanto tem se feito necessário, como profissional, falar sobre a importância de agir com equilíbrio, encontrando um meio termo. Venho trabalhando o tema com diversos pacientes e famílias por perceber o quanto tendemos a nos comportar de formas extremas.

“Oito ou Oitenta”

Sabe a expressão “oito ou oitenta”? É mais ou menos isso. Como se fossemos de um extremo a outro sem conseguir atingir um ponto intermediário, um “meio termo” que pudesse trazer equilíbrio.

Deixe-me dar um exemplo. O caso de uma pessoa com uma forma de se comportar muito passiva, com dificuldade em expressar suas vontades e que sempre cede aos desejos do outro.

Se isso não estiver sendo saudável – e provavelmente não estará -, seria o caso de a pessoa tentar expressar mais suas vontades, comunicar-se melhor, aprender a dizer não com menos dificuldade, enfim, tornar-se mais assertiva.

Entretanto, o que tenho notado não é isso. Mas sim uma mudança mais radical, em que o indivíduo com tal perfil passa a se expressar de maneira agressiva, a não ceder em mais nada ao outro e até mesmo a exigir rispidamente o que acredita ser seu direito.

E o equilíbrio, onde fica? A impressão que tenho é que acaba sendo mais fácil transitar entre os extremos, entre o sim ou não, o certo ou o errado, que refletir uma forma mais sensata, equilibrada de agir e de lidar com as situações e pessoas.

Assim, passamos a defender nossos pontos de vista “com unhas e dentes”, a fazer julgamentos e a considerar quem pensa diferente de nós como uma espécie de inimigo.

Consequências

As consequências disso tendem a ser desfavoráveis. Um exemplo pode ser visto nas redes sociais. Quando se inicia qualquer tipo de debate normalmente podemos observar dois “lados”.

É como se a vida fosse uma questão objetiva de prova, em que existissem apenas as opções certo ou errado, somente duas formas de se posicionar. Você deve escolher uma e atacar a outra.

Nos últimos dias surgiu uma polêmica enorme por conta de um programa de televisão ter lançado uma enquete, baseada em um filme que será lançado, questionando quem os entrevistados salvariam primeiro: um policial levemente ferido ou um traficante em estado grave.

Sete dos oito entrevistados responderam que primeiro salvariam o traficante. Com isso houve início uma grande discussão com muitas pessoas se posicionando contra a opinião dos convidados e utilizando a hashtag “#EuEscolhoSalvarOPolicial”.

A questão aqui não é as pessoas terem um posicionamento diverso àquele de quem estava presente no programa. O grande ponto de desequilíbrio é o fato de que cada um passou a defender seu “lado” de forma intolerante e agressiva e sem questionar a situação como um todo. Alguns chegaram a comentar que desejavam que bandidos fizessem algo à apresentadora ou a seus filhos.

A Importância de Questionar

Isso mostra o quanto precisamos aprimorar nossa capacidade de questionamento. Talvez o primeiro seja se a enquete não é tendenciosa. Ela explicita que o traficante está mais grave. E se a ideia não é de que situações de urgência/emergência devem ter prioridade no atendimento, porque há classificação de risco nos hospitais?

Se pela resposta dos convidados tirarmos a conclusão de que eles defendem bandidos, devemos também concluir que os médicos e demais profissionais de saúde também o fazem? Sim, porque nos hospitais são atendidos primeiro os mais graves, independente se são policiais ou bandidos. E isso faz parte da ética médica, não deve haver julgamento de valor para o atendimento.

Será também que alguém se perguntou por que a necessidade de escolha? No Brasil estamos tão acostumados a condições precárias de atendimento médico que nem estranhamos o fato de os dois não poderem ser atendidos. Fica fácil entrar numa polêmica como essa…

Daí vem outra reflexão que julgo mais importante ainda: Qual a utilidade dessa pergunta? Ok, uma delas é óbvia. Pelo menos para a emissora de televisão é a divulgação do filme. Mas e para nós cidadãos, para a população em geral? Sinceramente, uma questão aberta desta forma, vaga, sem maiores dados para basearmos nossa opinião, entendo como um desserviço.

A enquete pela simples curiosidade do que as pessoas fariam não traz esclarecimento, informação, troca de ideias, nem um debate saudável. Traz o que ocorreu: indignação, intolerância, discussões em tom de agressividade. Falta de equilíbrio na nossa forma de se posicionar.

Portanto, busque sempre ponderação, reflexão, questionamento. Não se permita deixar levar por discursos prontos, fast food de opinião – aquela que vem rápido, prontinha para você.

Fuja dos extremos, eles costumam ser armadilhas bem perigosas. Procure o “meio termo”. Por incrível que pareça até beber água em exagero pode fazer mal. Um ponto de equilíbrio sempre é uma alternativa mais saudável!

Psicóloga clínica, analista do comportamento e especialista em dependência química. Trabalho em clínica para tratamento de transtornos psiquiátricos e dependência química e em consultório particular com atendimento a crianças e adultos.

Mais textos