Família e Esquizofrenia

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Quando falamos em esquizofrenia ou qualquer outro transtorno mental, não podemos deixar de pensar no impacto que têm na vida das famílias das pessoas com tais diagnósticos.

O que percebo trabalhando com familiares é que normalmente possuem dúvidas sobre a doença e como agir com a pessoa, receios sobre o futuro e o agravamento da doença, medo de também adoecer e muitas vezes dificuldades de aceitação do diagnóstico. Imagine o quanto pode ser difícil descobrir que uma pessoa que você ama tem uma doença grave, tão pouco esclarecida, cheia de mitos e incurável. Por isso, é essencial que os familiares sejam bem orientados e cuidem de sua própria saúde mental também.

Uma primeira reação comum diante do conhecimento do diagnóstico é a negação. Alguns questionam os sintomas, tentam confirmar se não há outro diagnóstico possível e se recusam a aceitar. Por causa da negação podem tentar minimizar o problema, acreditando ser uma fase, que irá passar. Podem também se apegar à religião acreditando que um milagre possa resolver a situação.

Outra reação comum é se culpar ou tentar responsabilizar algo ou alguém pela doença. Os pais podem tentar culpabilizar o parceiro ou a família do mesmo e até a si próprios e a forma como criaram o filho. Familiares e cônjuges tendem a pensar no que fizeram ou deixaram de fazer que tenha contribuído para a doença. Isso acaba gerando sentimentos de revolta e de raiva pela dificuldade de aceitação.

Essas primeiras reações costumam gerar tristeza, angústia, e medo do futuro. A partir daí algumas famílias passam a superproteger a pessoa com esquizofrenia, tratando-a como alguém incapacitado e sem autonomia. Outras tentam, pelo contrário, responsabilizar o a pessoa pela melhora, impondo e exigindo coisas que muitas vezes estão fora do alcance da mesma e fazendo muitas críticas. Tudo isso causa desgastes nas relações familiares e não contribui para a qualidade de vida de ninguém.

Não se devem julgar essas famílias, que se encontram perdidas diante da preocupação e da dúvida de como agir e, portanto precisam de orientações sobre como conviver da melhor maneira com as consequências trazidas pela doença. Uma questão importante é o próprio tempo que a pessoa com esquizofrenia passa junto aos familiares por causa da tendência ao isolamento e dos cuidados que geralmente ficam a cargo deles. Isso afeta diretamente a vida dos cuidadores, que podem se sentir impotentes perante a doença.

Certas atitudes podem prejudicar as relações familiares. Como visto, exigir e criticar demasiadamente ou proteger demais são duas delas. Na verdade, qualquer extremo é ruim, assim, tratar de forma hostil não é benéfico, mas ser permissivo também não funciona bem. Agir de forma descompromissada e desinteressada não ajuda, entretanto, envolver-se demais a ponto de se anular, menos ainda, pois neste caso será mais uma pessoa adoecida. É importante encontrar um equilíbrio na forma de se relacionar, colocando os limites necessários, porém sendo afável e compreensivo. Cuidando da pessoa, mas não se esquecendo de si mesmo, reservando tempo para fazer o que gosta.

É muito importante que cada membro da família cuide também de sua própria saúde psíquica. Sabe aquela instrução dada nos aviões de, em caso de problemas com o voo, colocar a máscara primeiro em si e depois em quem não tiver condições de fazer sozinho? Não é possível ajudar alguém sem estar bem antes, é preciso criar as condições para isso.

Alguns familiares se assustam, por exemplo, quando o terapeuta sugere que também façam psicoterapia. Já me disseram algumas vezes: “Mas é meu familiar que precisa, não eu!”. Porém, é impossível conviver com alguém que tem esquizofrenia e não sofrer as consequências disso. Por isso é importante que exista um espaço para que essa pessoa exponha seus sentimentos, suas dúvidas, temores, não só no que diz respeito ao convívio com o familiar adoecido, como também sobre todas as outras áreas da vida. Isso contribuirá imensamente para a relação familiar e o bem estar de todos. Numa família em que todos se cuidam, a possibilidade de um futuro benéfico é maior.

À medida que o tempo passa e a família vai obtendo mais informações, recebendo suporte, aprendendo a lidar com as situações decorrentes da esquizofrenia e conseguindo se relacionar de forma mais saudável a tendência é que as coisas caminhem com mais tranquilidade e os impactos da doença sejam amenizados.

Psicóloga clínica, analista do comportamento e especialista em dependência química. Trabalho em clínica para tratamento de transtornos psiquiátricos e dependência química e em consultório particular com atendimento a crianças e adultos.

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