Três Fatores da Dependência Química

 

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Sempre que vou atender as famílias de pacientes com o quadro de dependência química, observo dúvidas sobre a origem do problema, como ele se desenvolve e o porquê de nem todos os usuários evoluírem no uso até a adicção. Este texto visa abordar os três aspectos que compõem a dimensão ampla do transtorno relacionado ao uso descontrolado das drogas.

O primeiro aspecto que devemos compreender sobre a dependência química é exatamente o bioquímico. A atuação das substâncias psicoativas no organismo ocorre de forma a gerar uma adaptação progressiva no organismo. Por isso uma pessoa que faz ingestão de álcool fica alterada rapidamente quando inicia no uso das bebidas, mas com o tempo consegue fazer uso de grandes quantidades de álcool, seja diluído – como cerveja –, seja concentrado – como na vodca. O organismo se adapta por haver a liberação de substâncias relacionadas à sensação de prazer. No passado, quando o homem ainda vivia em perigo constante na natureza, essa sensação ajudava a prezar pela repetição da atitude como sinal de sobrevivência. O corpo ainda hoje interpreta tal sensação como uma necessidade de repetição. Mudamos muito do ambiente ao nosso redor, mas as mudanças adaptativas do organismo levam muito mais tempo para ocorrer, e, portanto, acabamos não respeitando nossas heranças, até por desconhecimento desse mecanismo durante boa parte do desenvolvimento da ciência humana.

Esse aspecto fisiológico da questão também se relaciona, como podemos observar, a aspetos hereditários. Genéticos. Isso anuncia que algumas pessoas podem ter maior predisposição à dependência química. Alguns indivíduos já nascem com maior sensibilidade para obter prazer quando estimuladas certas atividades do cérebro. Podendo ser tanto por excesso de determinados neurotransmissores sendo produzidos, quanto pela facilidade de terem maior números de locais para a vinculação das drogas (os sítios de ação). Mas cuidado: a genética sugere a vulnerabilidade, mas não a torna uma condição irrevogável. Filhos de alcoolistas têm maior predisposição a desenvolver o alcoolismo, mas isso não é algo determinado por natureza.

Para compreender o motivo pelo qual a genética não é um fator determinista, precisamos compreender os dois próximos aspectos, sendo um deles o fator indivíduo. A história de vida de cada pessoa é fundamental para avaliar a possibilidade de uma pessoa vir a ter problemas com o uso de substâncias. É importante sempre analisar a forma de pensar e agir das pessoas. Suas crenças, ideias, fundamentações explicam muito do modo como lidam com as drogas. Pessoas sem perspectivas de um futuro melhor serão mais vulneráveis. E isso nada tem a ver com questões sócio-econômicas, mas sim com a forma como cada um aprende e constitui suas lições de vida. Uma pessoa mais descrente nas mudanças, que nutre crenças de que não pode alterar o destino das coisas e que com isso assume papel de vítima em vários momentos da vida terá muito mais dificuldade de se livrar do benefício imediato das drogas. Porque estas proporcionam um alivio imediato para o mal estar da vida real. As drogas oferecem o conforto de não ter de lidar com os problemas cotidianos.

Esse padrão de pensamento e ação é obviamente aprendido ao longo da vida. Quem foi ensinado a lutar e perseverar pode romper as amarras das drogas com menos dificuldade. Portanto, uma das maiores armadilhas que a droga oferece é no campo do simbólico, pois representa a fuga do incômodo emergente.

Por fim, mas não menos importante, o aspecto social é uma peça primordial na formação do comportamento adicto. A cultura dos grupos sociais em que as pessoas vivem ajuda a definir a simbologia da droga. Isso vai desde os círculos familiares, aos ambientes de trabalho passando pelos diversos locais de convivência e entrelaçamento humano. Relações sociais mais estressoras, punitivas e coercitivas são mais desfavoráveis à construção de um sentimento de autoestima e autoconfiança. Quanto mais a pessoa se sentir excluída, rejeitada, desprezada por fazer uso de certas drogas, maior a possibilidade de se dedicar às drogas e mais difícil será quebrar essa desconfiança para que se dedique ao tratamento no futuro. E infelizmente a nossa sociedade é mestre em se portar dessa maneira.

O importante é nos atentarmos para o fato de que a dependência química é uma doença crônica multifatorial, ou seja, diversos fatores interferem para que ela ocorra. Esses fatores passam por três campos: o biológico, o psicológico e o sociológico-antropológico. Não há a possibilidade de uma pessoa nascer dependente, mas ela pode nascer com uma sensibilidade maior a se tornar uma. Desde que sua história de vida e das suas relações sociais sejam favoráveis a tanto. Portanto, cabe a todos nós enquanto sociedade prevenir o surgimento dessa condição que tanto sofrimento causa aos usuários, seus familiares, e à população em geral, pois seus desdobramentos atingem a todos.

Psicólogo Clínico, Analista do Comportamento e especialista em Transtornos Mentais e Dependência Química.
CRP 16/2794