Internação Psiquiátrica: O Que É e Para Que Serve?

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Na área da saúde mental uma questão frequentemente abordada é a da internação psiquiátrica. Ainda é um assunto muito polêmico por falta de compreensão e pelo passado, ainda recente, da forma como as instituições e o modelo de tratamento funcionavam. Para tanto, este texto tem por finalidade elucidar alguns pontos do tema e ampliar a compreensão de quando, como e porque a internação pode ser útil.

A internação é mal vista por estar historicamente associada a antigos hospitais gerais que funcionavam como forma da retirada de doentes dos ambientes comuns da sociedade. Muitos manicômios se originaram de leprosários e hospitais gerais, regidos por uma dinâmica não de tratamento ou cura, como compreendemos os hospitais de hoje, mas como lugares onde as pessoas iam para morrer. Foucault, filósofo francês estudioso em história e relações de poder, ao longo de sua obra, lança luz às relações de poder como forma de compreender as instituições de sequestro, lugares destinados a colocar à margem práticas e indivíduos e doutrinar melhor a sociedade como um todo. Dessa forma, essas instituições de sequestro eram compostas por prisões, leprosários, manicômios e até escolas de internato.

Além desses aspectos específicos da criação dos ambientes de tratamento, a doença mental como um todo sofreu muitos preconceitos ao longo da história. Desde possessão demoníaca ao entendimento de total falta de racionalidade, as pessoas que sofreram de diversos males psíquicos raramente tinham sua saúde analisada sem moralismo e com investigação científica apropriada. Sendo assim, até muito recentemente havia instituições mantidas apenas com a função de separar essas pessoas do restante da sociedade. Os grandes hospitais psiquiátricos serviam mais de grandes depósitos de “desajustados” que com a finalidade de tratamento. E esse modelo durou até muito recentemente.

Com a reforma psiquiátrica, iniciada na Europa após a Segunda Guerra Mundial, houve então a exposição dessas práticas e se iniciou um movimento de luta antimanicomial, que vem a ser uma luta pela liberdade e afirmação do sujeito perante a doença mental. Esse movimento busca quebrar a necessidade da internação psiquiátrica enquanto algo duradouro. Isso desencadeou o extremismo dos que defendem que não deve haver nenhum tipo de internação em instituições psiquiátricas, e até que sequer existam esses tipos de ambientes.

Porém, a internação para tratamento às vezes se faz necessária. Os hospitais gerais, em sua maioria, não possuem ala psiquiátrica e pouco conseguem fazer com pacientes em surto, a não ser a contenção física e medicamentosa. Se a queixa sobre os hospitais psiquiátricos é que eles desumanizam o sujeito por seu tipo de tratamento, quão humanizado pode ser o tratamento em um ambiente despreparado para tais pacientes? Pois doenças mentais existem, isso é inegável, e algum tipo de tratamento se faz necessário. Mas esse tratamento não precisa ser o praticado nas antigas instituições.

Hoje existem clínicas psiquiátricas com internação de curto tempo para tratamento de transtornos mentais e dependência química que são muito eficazes na melhoria da saúde dos pacientes. Em sua grande maioria, os pacientes não precisam sequer de qualquer tipo de contenção física e a medicação psiquiátrica tende a ser avaliada diariamente de forma a evitar a sedação.

A seleção para a entrada nessas clínicas é feita por avaliação de especialistas (médicos, psicólogos e enfermeiros, normalmente) de forma a orientar o tratamento para que o período de estadia seja o mais breve possível e que o tratamento possa ser continuado depois em regime ambulatorial (consultórios). São admitidos pacientes, normalmente, na fase aguda de suas doenças, como em crises de abstinência, dependentes químicos com padrão intenso de consumo de substâncias psicoativas (drogas), em surto psicótico, em surto maníaco (transtorno bipolar), com depressão, que tiveram tentativas de suicídio, com transtorno de personalidade, com padrões desregulados de alimentação, entre outros casos.

A importância do tratamento de internação é que ele restringe o ambiente do paciente de forma a facilitar a retirada da crise – muitas vezes ligada ao meio estressor em que vive –, além de manter observação constante do progresso. Esse monitoramento, sendo bem desenvolvido, otimiza a alta. Outro fato relevante é de que a observação dos comportamentos do paciente em internação vai além do relato verbal do próprio em sessão, facilitando a análise e atuação dos profissionais.

É essencial ressaltar que os profissionais que atuam na seleção dos pacientes que serão internos sejam capacitados para realizar tal função, de forma a evitar internações baseadas apenas no relato de familiares – que nesta abordagem após a reforma psiquiátrica também fazem parte integral do tratamento por se entender a doença mental como uma patologia sistêmica – ou em padrões de comportamento simulados por pacientes, que buscam se esquivar de suas responsabilidades ou apenas receber benefícios do governo.

Em suma, os antigos modelos de manicômios já não são a base de tratamento, e atualmente a internação psiquiátrica não visa a institucionalização dos pacientes, mas sim a um tratamento breve para a retirada da fase aguda de doenças e preparação para a otimização do tratamento ambulatorial.

 

Psicólogo Clínico, Analista do Comportamento e especialista em Transtornos Mentais e Dependência Química.
CRP 16/2794