Loucura em Pauta na Barbearia

Foto Texto H02

Dia desses precisei cortar o cabelo, porém como o local onde costumo ir era um pouco mais distante e eu precisava de algo mais rápido acabei indo a uma barbearia em que nunca estive antes. Quem frequenta barbearia sabe como é, logo acabamos conversando e falando quem somos e o que fazemos. Quando me perguntaram sobre a vida profissional informei que sou psicólogo e que um dos meus trabalhos é em uma clínica psiquiátrica.

Porém, acho que o barbeiro só assimilou a parte sobre a clínica psiquiátrica, e soltou essa: “então você trabalha com gente doida e drogada”. Não me assustei, pois um dia eu também já tive muitas dúvidas sobre o que era relacionado ao tema até então desconhecido por mim. Assim, minha postura foi de lançar o seguinte questionamento: “O que é ser doido para você?” A resposta não me surpreendeu: “É aquela pessoa que tira a roupa na rua, ou sai gritando e falando sozinha por aí, e que precisa ficar no hospício e tomando remédio para sempre”. Fui perguntado sobre meu ponto de vista e antes de respondê-lo, percebi que os outros dois clientes que estavam interagindo entre si pararam sua conversa e ficaram na expectativa da minha resposta, o que aumentou minha responsabilidade e , claro, minha ansiedade.

Quer saber o que respondi? Vamos lá. Disse aos novos colegas da barbearia e também digo a você, que as pessoas que sofrem de algum transtorno mental, em sua maioria, são tão capazes como qualquer um. Até porque as classificações diagnósticas recebem influência da cultura vigente na medida em que esta preconiza o que é aceito ou não socialmente. Assim, os diagnósticos na verdade auxiliam a nortear alguma forma de tratamento, mas não devem servir para rotular indivíduos.

Fatores biológicos e relacionados com o desenvolvimento da história de vida de cada um de nós também são fundamentais para o surgimento de comportamentos que “fogem” do aceitável socialmente. Por exemplo, o índice de crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) no Brasil gira em torno de 5%, enquanto na França é de 0,5%. Neste caso a diferença está nos nossos critérios para o diagnóstico que são semelhantes aos dos Estados Unidos, onde o foco está nos sintomas como consequências de distúrbios por causas biológicas, enquanto na França se valoriza mais as causas psicológicas, sociais e circunstâncias a que as crianças estão sendo expostas no seu cotidiano acadêmico e familiar.

Enfim, acredito que a discussão na cadeira do barbeiro é muito comum, talvez mais do que pensamos. Quem nunca chamou alguém de louco? Pode ter sido em uma discussão de casal, ou vendo alguém falando sozinho em alguma parte da cidade.

Posso estar enganado, mas penso que muitas vezes as pessoas são classificadas com transtornos na medida em que não são compreendidas em seu sofrimento. Desta forma, os motivos que antecedem qualquer tipo de crise precisam ser considerados. E não é por algo ser diferente do que me ensinaram como padrão de normalidade que preciso excluir ou rotular e ignorar.

Da mesma forma que é considerado comum se tratar de diabetes ou hipertensão, espero o dia em que será bem aceito fazer acompanhamento com psicólogo e psiquiatra. Afinal, somos diferentes, igual a todo mundo. Não temos uma fôrma perfeita na qual somos criados. Temos formas diferentes de aprender e aplicar nossos conhecimentos, e precisamos ter sempre cuidado para não ofendermos o outro por achar que a nossa forma de pensar seja a única correta. O mais importante é que nossas crenças sobre normalidade não desrespeitem as de outras pessoas.

Gostei muito da minha experiência. Mas me veio outra pergunta: o que é “ser normal”?

Até a próxima!

Psicólogo clínico, analista do comportamento e especialista em transtornos mentais e dependência química.

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