O contrário de Machismo?

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É comum ouvirmos que feminismo é o contrário de machismo. Levando-se em conta que o pensamento machista considera que o homem é superior à mulher, isso significaria que o feminismo acredita que a mulher é superior ao homem. Seria uma disputa para mostrar “quem é o melhor”. Mas, será que é isso mesmo?

Conceitos

Para iniciar essa reflexão, trago algumas definições dos dicionários sobre feminismo.  No Dicionário Online de Português encontramos as seguintes:

  • Doutrina cujos preceitos indicam e defendem a igualdade de direitos entre mulheres e homens.
  • Movimento que combate a desigualdade de direitos entre mulheres e homens.
  • Ideologia que defende a igualdade, em todos os aspectos (social, político, econômico), entre homens e mulheres.

No Dicionário Michaelis temos:

  • Movimento ideológico que preconiza a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher ou a igualdade dos direitos dela aos do homem.

Já no Priberam a definição é ainda mais completa:

  • Movimento articulado na Europa, no século XIX, com o intuito de conquistar a equiparação dos direitos sociais e políticos de ambos os sexos, por considerar que as mulheres são intrinsecamente iguais aos homens e devem ter acesso irrestrito às mesmas oportunidades destes. (O movimento pressupunha, já de início, uma condição fundamental de desigualdade, tanto em termos de dominação masculina, ou patriarcado, quanto de desigualdade de gênero e dos efeitos sociais decorrentes da diferença sexual.)

É possível notar que os conceitos estão voltados à percepção da desigualdade entre os gêneros e à busca da equiparação de direitos entre os mesmos.

Não há uma tentativa de sobrepor de alguma forma o gênero feminino ao masculino, mas sim de estimular a reflexão sobre a necessidade de mudança de alguns padrões culturalmente estabelecidos que favorecem os homens.

A Naturalização do Pensamento Machista

É possível notar que muitas pessoas consideram exageradas ou até mesmo desnecessárias algumas discussões relativas à desigualdade entre gêneros. Acham que feministas querem “aparecer”, provocar e não levam a sério seus debates.

Algumas o fazem por realmente terem uma postura machista, uma forma sexista de pensar e agir, até mesmo assumindo isso. Outras, porém, simplesmente não questionam aquilo que, apesar de ser culturalmente construído, é passado para nós como algo pertencente à natureza humana.

São exemplos: dizer que a mulher é mais fraca e frágil que o homem, que o homem dirige melhor, que a mulher é pior em fazer cálculos… E por aí vai. Tiramos a individualidade do sujeito e dividimos os seres humanos em duas classes, homens e mulheres, acreditando que suas habilidades estarão de acordo com esta divisão.

Isso não significa que não existem diferenças anatômicas e fisiológicas entre os gêneros, mas a desigualdade da qual o movimento feminista trata fala do que é estabelecido pela sociedade e cultura em que vivemos.

No dia 23 de Novembro, por exemplo, uma emissora de televisão marroquina exibiu um programa em que era ensinada uma maquiagem para mulheres que sofrem violência doméstica disfarçarem os hematomas causados pelas agressões.

Não podemos considerar natural um homem acreditar-se no direito de agredir uma mulher. Esse tipo de conduta é algo culturalmente estabelecido, a ponto de ser veiculada uma matéria de tal tipo, como se violência doméstica fosse a coisa mais natural do mundo. Em vez de combater a violência e punir os agressores, vamos ensinar as vítimas a disfarçar as marcas…

O Machismo no dia a dia

Vamos fazer um teste. Seja você, leitor, homem ou mulher (nós mulheres muitas vezes também temos condutas machistas), pense se, mesmo que de forma espontânea e até sem pretensão de diminuir as mulheres, já usou algumas das seguintes frases:

  • “Mulher no volante, perigo constante.”;
  • “Deve estar de TPM…”;
  • “Ela tá precisando é de um namorado (ou algo pior…)!”;
  • “Ficou pra titia.”;
  • “Com essa roupa, tava querendo o quê?”;
  • “Ela fala muito palavrão, parece homem.”;
  • “Mulher pra ficar bonita tem que sofrer.”;
  • “Deste jeito nunca vai arrumar um homem, vai ficar solteirona.”;

Existem muito mais frases neste modelo, sendo que muitas delas ouvimos de nossas próprias mães e avós.

Se você já disse algumas delas, não se sinta mal. Nunca é tarde para rever seus conceitos e passar a questionar aquilo sobre o que talvez nunca tenha refletido.

A importância do Feminismo

É porque eu, você e a maioria das pessoas provavelmente já falamos várias dessas frases, ainda que sem nos considerarmos machistas, que o movimento feminista é importante.

Precisamos trazer a discussão sobre gêneros à tona para que a desigualdade seja desconstruída, as mulheres tenham garantia de acesso aos mesmos direitos que os homens e, acima de tudo, possamos ver os seres humanos como realmente são: iguais.

Afinal, como diz o filósofo Mario Sergio Cortella: “Feminismo não é o contrário de Machismo. O contrário de machismo é inteligência”.

Referências

https://www.dicio.com.br/feminismo

http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=feminismo

https://www.priberam.pt/DLPO/feminismo

http://br.blastingnews.com/mundo/2016/11/revolta-programa-de-tv-mostra-tutorial-para-esconder-marcas-da-violencia-domestica-001290827.html

Psicóloga clínica, analista do comportamento e especialista em dependência química. Trabalho em clínica para tratamento de transtornos psiquiátricos e dependência química e em consultório particular com atendimento a crianças e adultos.

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