O que está acontecendo com as crianças de hoje?

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É cada vez mais comum vermos crianças irritadiças, impacientes, chorosas… Birrentas, como costumamos dizer. Muitas vezes associamos esse tipo de comportamento a uma “personalidade forte”, dizendo: “Ah, puxou o gênio do pai!” ou “Nossa, tem o temperamento difícil da avó”.

Mas será simplesmente que hoje nasçam mais crianças com tal perfil? Um início para tentarmos responder a essa questão é trocar a pergunta inicial: O que está acontecendo com os adultos? Afinal, crianças vão aprendendo a se comportar e a interagir com outras pessoas seguindo modelos fornecidos por adultos – principalmente os pais – e os limites impostos pelos mesmos.

Lembro que, quando criança, bastava uma olhada da minha mãe para eu entender que devia parar o que estava fazendo. Era meu pai pedir uma vez para eu fazer algo e eu sabia que era melhor obedecer. Isso sem citar épocas anteriores, em que relações entre pais e filhos costumavam ser bastante distantes, com pais rigorosos e crianças com muito menos voz. É claro que em outras épocas os pequenos também testavam limites, desobedeciam e às vezes respondiam de forma “malcriada”, também havia pais que tinham dificuldades em colocar limites, dar responsabilidades, mas, em geral, o cenário diferia bastante do que temos atualmente.

É excelente que crianças possam ter papel mais participativo dentro da dinâmica familiar, que sua visão de mundo e suas ideias possam ser ouvidas e respeitadas. Porém, quando passam a ser o centro das atenções, quem dita as ordens dentro da casa e impõe tudo a seu modo e tempo, o que veremos serão, no mínimo, pais desgastados e crianças impacientes e intolerantes a frustrações.

Vivemos num mundo sob constante pressão em que somos cada vez mais cobrados. Há cobrança até de ser feliz (ou pelo menos parecer). É preciso trabalhar, mas não só, tem que amar o que faz e ser bem sucedido financeiramente, trocar de carro, celular, poder pagar uma boa escola para os filhos e de preferência viajar nas férias. Ah! E não esquecer de postar tudo nas redes sociais. Isso sim é sucesso! Esses mesmos adultos são responsáveis por pessoinhas que também vivem com cada vez mais cobranças. Tem que estudar, mas também aprender idiomas, informática, fazer esportes, além de brincar e se divertir. Então temos pais fisicamente cansados e muitas vezes impacientes e emocionalmente exaustos e filhos que demandam atenção e suporte independentemente de qualquer estado físico ou emocional dos mesmos. Querem ser ouvidos, querem companhia, querem brincar. Nessa dinâmica é comum que venham a pedir algo ou a fazer alguma coisa inadequada, necessitando da intervenção dos responsáveis no sentido de estabelecer limites. Se nessa hora a criança faz uma birra, chora ou grita, esse embate é desgastante para os adultos, que para fazerem cessar os gritos e choro, normalmente aversivos, podem acabar cedendo à vontade do pequeno.

Mesmo crianças pequenas já interpretam o mundo ao redor e os resultados de suas ações, e a ocorrência desse tipo de evento acaba indicando que o comportamento de chorar é seguido por algo positivo, traz benefícios. Num outro momento, por exemplo, se essa criança é levada ao shopping e, numa loja de brinquedos, pede um presente que é negado, é bastante provável que repita aqueles comportamentos que em casa garantem que consiga o que quer. Choro, gritos, pirraça, jogar-se no chão, são algumas atitudes por parte de crianças que com frequência podemos observar em locais públicos. Nessas situações os pais tendem a se sentirem envergonhados e a acabar novamente cedendo, intensificando para a criança a relação entre o comportamento de birra e os ganhos trazidos para ela.

Esse é um panorama traduzido de forma bastante resumida e obviamente não abrange a complexidade de eventos e interações do convívio entre pais e filhos que podem ir configurando uma relação na qual os limites mostram-se muito tênues e o respeito e o afeto muitas vezes vão ficando em segundo plano, pois mais imediato torna-se conter a criança e seus impulsos, satisfazendo suas vontades impostas.

É no mínimo complicado responsabilizar essas crianças, pois apenas estão agindo de forma a obter mais benefícios, o que é natural até mesmo biologicamente, até que vamos sendo inseridos e educados numa cultura em que nos deparamos com o fato de nem sempre ser possível agir à nossa maneira e obter o que queremos. Por isso é fundamental que os pais possam transmitir a seus filhos, desde pequenos, a ideia de que não podem ter tudo que querem, ensinando a importância dos limites e regras e assim ajudando-os a lidar com as frustrações com que invariavelmente irão se deparar fora do ambiente familiar. Dessa forma poderão desenvolver relações mais saudáveis com seus filhos, além de criar indivíduos emocionalmente mais saudáveis e preparados para enfrentar as adversidades da vida. Todos saem ganhando.

Psicóloga clínica, analista do comportamento e especialista em dependência química. Trabalho em clínica para tratamento de transtornos psiquiátricos e dependência química e em consultório particular com atendimento a crianças e adultos.

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  • Maila Martins

    Muito importante essa leitura! Parabéns a equipe super qualificada!

    • Marcelina Machado de Lima

      Muito Obrigada!