O Que Não Mata Gera Aprendizado

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Todos os dias nós passamos por algum momento de dificuldade, seja fazer um trabalho acadêmico que está atrasado, pagar contas quando os recursos financeiros estão escassos, organizar mudança de casa, escrever este texto, receber a notícia que precisará enfrentar algum tipo de doença, terminar um relacionamento de anos, enfim, qualquer um está sujeito a enfrentar obstáculos dos mais diferentes gêneros e graus de complexidade. E independente da circunstância quase sempre ouvimos algum incentivo com o objetivo de nos dar força para seguir em frente e superar cada situação aversiva como as mencionadas. Então por que algumas pessoas possuem mais capacidade de enfrentar adversidades que outras?

Na tentativa de entender melhor esse processo, gostaria de mencionar um dos maiores exemplos de superação que nós brasileiros tivemos, que foi o de Ayrton Senna no dia 24 de março de 1991. Àquela altura ele já estava há sete temporadas na Fórmula 1 e ainda não havia vencido a corrida no Brasil.

A pressão da mídia e a própria pressão que ele exercia pelo resultado foram ingredientes para uma corrida que tinha tudo para dar errado. Faltando vinte voltas para o término da prova que ele liderava desde a largada o câmbio de marchas falhou e ele ficou praticamente com uma marcha, e para piorar sua situação começou a chover faltando duas voltas para a tão desejada vitória.

Mesmo diante de tamanhas adversidades e sequer conseguir sair do carro sozinho, ele venceu a corrida. Senna, precisou de ajuda para erguer o troféu no pódio, e em sua entrevista pós-corrida falou que chegou a pensar que não conseguiria vencer, mas que pensou nos brasileiros torcendo e nos anos todos de espera por essa oportunidade. Houve superação física e, segundo o próprio, principalmente psicológica para manter-se focado em suportar o que estava passando.

Pensando no exemplo de nosso campeão no automobilismo, gostaria de analisar como de fato podemos desenvolver comportamentos que nos levem a superar obstáculos, ou para que minimamente nos permitam passar pelas dificuldades da vida sem muitos danos.

Mesmo que a fé ou a força de vontade, por exemplo, sejam válidas a algumas pessoas para explicar a postura de Senna que resultou em sua superação, ao pensarmos como as relações sociais são construídas desde o ambiente religioso, acadêmico e familiar ao set de uma corrida de Fórmula 1, podemos perceber que a nossa interação com nossos ambientes e pessoas que passem por situações semelhantes a nossa será fundamental para desenvolvermos o aprendizado de novos comportamentos.

Quero dizer que o comportamento de Senna foi construído antes da corrida citada. Desde a sua infância ele passou por situações em que precisou superar-se e teve ao seu lado pessoas que serviam de modelo para suas ações (pais, irmã, sobrinhos, mentores profissionais, outros pilotos…)

Assim teremos maiores chances uma vez envolvidos por muito tempo em relações sociais que favorecem o crescimento de fatores que nos ajudem na prevenção e respostas eficazes perante contextos de dificuldades.

Provavelmente você já se inspirou em alguém de seu convívio para lidar com alguma situação aversiva, seja qual for.

Reconhecer nossas limitações também é fator importante para o desenvolvimento de comportamentos resilientes. Por exemplo, conheço o caso uma dentista que é alérgica a látex, e muitos itens no consultório odontológico possui esse material, porém apesar de ficar entristecida por tal condição de seu organismo, logo iniciou ações para lidar com tal limitação. Adquiriu luvas de outro material e já pensa em alternativas para guiar sua carreira a contextos longe do que lhe causa prejuízo a saúde e ao mesmo tempo lhe proporcionem continuar atuando com a base de conhecimento adquirida na graduação.

Também é importante ficarmos atentos às condições nas quais estamos para conduzir nossa conduta diante do que nos for aversivo. Por exemplo, a faixa etária (uma criança que perde os pais aos 6 anos de vida não lida com tal perda da mesma forma que alguém com 35 anos), questões de gênero, as crenças e valores culturais e espirituais, o momento sócio-histórico e a disponibilidade de recursos. Tais aspectos favorecem a avaliações de fatores de risco e proteção na hora de avaliarmos as possibilidades de transpor as dificuldades.

Porém fique claro que este texto não é uma receita de bolo, mas apenas uma tentativa de reflexão com o objetivo de enfrentarmos as dificuldades do cotidiano.

E ressalto que ser capaz de lidar com adversidades é na verdade a possibilidade de nos conhecer, e a partir disto compreendermos as funções de nossas atitudes e de como podemos controlá-las ao nosso favor. Possivelmente, o que não mata gera aprendizado, e assim poderemos desenvolver formas cada vez mais eficazes para lidar com dificuldades e nossas próprias limitações.

Psicólogo clínico, analista do comportamento e especialista em transtornos mentais e dependência química.

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