Os Benefícios da Terapia para o Terapeuta

Quando falamos sobre os efeitos benéficos da psicoterapia, costumamos olhar para os resultados focando no paciente. Claro, afinal de contas é ele quem contrata tal serviço para seu aprimoramento emocional. Porém, o cliente não é o único sujeito afetado no processo terapêutico.

A psicoterapia é um processo voltado ao desenvolvimento do paciente. Busca verificar áreas da vida do sujeito em que ele avalia necessitar de aprimoramentos, desde a aquisição de novas habilidades, à lapidação de um repertório de comportamentos já presentes no paciente. Pode envolver a busca por sonhos, metas e objetivos de vida, a superação de grandes dificuldades, como perdas, ou a adaptação a um novo modo de vida, como aprender a conviver com uma doença.

Ainda assim, o terapeuta também é transformado durante o processo terapêutico. Não é possível haver neutralidade na terapia, pois o observador afeta e é afetado pela troca realizada com o paciente no ambiente do consultório.

Muitas vezes quando o assunto do impacto da terapia sobre o profissional de psicologia é abordado, o foco acaba por ser em aspectos nocivos desse processo, como o quanto o terapeuta se perde, se confunde, toma para si os problemas, projeta no paciente seus problemas mal resolvidos e faz análises e intervenções equivocadas. Isso pode sim acontecer, mas não é a única forma, tampouco a melhor maneira, do psicólogo ser afetado pela terapia do paciente. O psicoterapeuta pode se beneficiar profissionalmente e pessoalmente da terapia que desenvolve com seu cliente.

No âmbito profissional, o psicólogo aprende a aprimorar sua técnica de escuta, de análise e de intervenção quanto mais rica for a variedade de casos e pacientes que atender. Aprende o momento certo de expor determinado pensamento; desenvolve habilidade de comunicar uma análise realizada; aprimora a escuta seletiva, filtrando a informação e percebendo as camadas que existem abaixo da superfície e o seu conteúdo oculto ao paciente; elabora meios mais acessíveis e menos reativos (por parte do seu  interlocutor) de intervir sobre assuntos delicados; desenvolve capacidade de diagnóstico (ao lidar com transtornos psiquiátricos) com a densidade de certos casos; consegue orientar, coordenar e dirigir ações específicas dos pacientes sem ser muito diretivo, impositivo ou mesmo autoritário; aprimora sua ética ao não ser moralista; otimiza resultados por conquistar a confiança e o respeito de sua clientela ao aceitar incondicionalmente a humanidade de um sujeito comum e cheio de falhas como ele mesmo também o é.

Na esfera pessoal, o psicoterapeuta aprende com seus pacientes e produz reflexões que afetam sua vida familiar, financeira, seus sonhos e objetivos de vida, suas relações amorosas e de amizade, sua visão de mundo, sua relação com os filhos. Enfim, a terapia serve ao propósito indireto de transformar a vida do terapeuta, querendo ele ou não. E eu passei por isso também. Diversas vezes. E gostaria de citar aqui dois exemplos para ilustrar.

O primeiro deles foi quando eu atendia jovens e adolescentes em internação compulsória para tratamento de dependência química. Ao tentar entender a relação dos pacientes com a droga tive de me analisar e perceber que eu mesmo tinha um comportamento de descontrole na minha vida, mas com comida. Fui estudar a relação entre ambos e percebi que há muitas similaridades. Então, como eu poderia mostrar para esses garotos que eles tinham como dizer não ao impulso de usar as drogas, se eu não dizia não ao meu impulso de comer? Tive de rever meus princípios e comecei um programa de mudança de vida para ressignificar minha relação com a comida. Mudei meus hábitos alimentares e de atividade física e pude ir trabalhando com os meninos ao mesmo tempo que mostrava a eles que é possível operar mudanças nas nossas vidas, por mais difíceis que sejam para cada um.

Outro exemplo do quanto pude ser impactado pelos pacientes foi uma lição que aprendi ao longo do tempo como terapeuta. Quando saí da graduação, costumava ser mais controlador. Sentia-me no dever de tomar para mim as questões de diversos pacientes e formular vários recursos e estratégias para orientar o tratamento. Ao lidar com pacientes com depressão grave e ideação suicida, tive de rever minhas frustrações e minhas posturas mais controladoras e lidar com o fato de que nem sempre obteremos êxito e que usar de autoridade e controle muitas vezes pode mais afastar que aproximar os pacientes. Só mesmo quando me coloquei realmente no lugar deles que pude compreendê-los em suas frustrações mais básicas e ajudá-los a vislumbrar uma perspectiva de mudança. Isso mudou minha relação com meus pacientes de uma forma geral e minha postura terapêutica como um todo, além de me fazer repensar algumas posturas de vida.

Em suma, aprendemos e muito enquanto terapeutas quando trabalhamos com os pacientes. É impossível não ser afetado pelas vivências do paciente e fico contente por ser assim, pois é extremamente recompensador.

Psicólogo Clínico, Analista do Comportamento e especialista em Transtornos Mentais e Dependência Química.
CRP 16/2794