Os Caminhos que Trilhamos

3d man choosing the right way with blackboard

Um dia desses, estava conversando com um amigo e surgiu o assunto sobre as diversidades da vida e como as pessoas são capazes de nos surpreender por trilharem caminhos inesperados pela maioria.

O caso em questão era o de uma família com três irmãos, em que dois deles eram empresários (e deveriam estar na China a negócios no exato momento em que conversávamos) e um havia passado boa parte da vida transitando por clínicas de recuperação para dependência química. Meu amigo se questionava os motivos dessa diferença entre os irmãos ocorrer, visto que ele era próximo à família e tinha certeza de que todos foram tratados de forma igual.

Em primeiro lugar, indaguei sobre essa questão do tratamento igual explicando que dificilmente é assim e que muitas vezes há rejeições sutis dos pais a alguns filhos e há também aqueles que são preferidos, por motivos que normalmente desconhecemos. Ele foi categórico em dizer que não, que todos tiveram o mesmo tratamento, deveria ser outro o motivo.

Antes de seguirmos com o rumo da conversa, vamos discutir um pouco mais esse tema. Há diversos motivos para os pais tratarem os filhos de formas diferentes. Muitas vezes alguns filhos nasceram em um momento mais próspero da família enquanto outros podem ter vindo em um momento de maiores privações. Isso pode dificultar acesso à educação e à saúde de melhor qualidade e a um ambiente familiar mais agradável. Pode também ter ocorrido de a gravidez não ter sido planejada e afetar muito a dinâmica anteriormente estabelecida na casa, de forma a esse filho sofrer algum tipo de rejeição. Ou mesmo um dos pais ou irmãos pode ter passado por algum trauma que gera uma mudança de comportamento pela qual um dos irmãos sofrerá consequências diferentes dos demais.

O tratamento diferenciado entre os filhos às vezes é imperceptível aos olhares distantes e superficiais e pode ser muito sutil. Em termos terapêuticos, sempre é necessária uma análise mais minuciosa sobre as relações familiares, pois muitas vezes o fato de ospais darem as mesmas oportunidades de vida (escolas, saúde, círculos sociais,…) não significa dar o mesmo afeto e ter o mesmo cuidado. Mesmo quando há palavras e atos de afeto no seio familiar, muitos maus tratos também podem ocorrer.

Seguindo o rumo da conversa, foiabordada pelo meu interlocutor a opinião dele de ser na verdade a forma como cada um lida com as oportunidades que lhe são dadas. Muito sábio da parte dele colocar as coisas dessa forma. Não exclui a discussão anterior, mas amplia o assunto e evita que ela caia em vitimismos (tendência das pessoas a se apresentarem como vítimas das situações).A tese de meu colega era de que o seu amigo se deixou influenciar por experiências vividas e descartou boa parte da educação recebida pelos pais: a mesma que os outros irmãos receberam. Seria uma experiência particular que teria afetado o rapaz de forma a diferenciá-lo dos demais familiares.

No caso em questão, meu amigo focou a discussão no consumo indiscriminado de drogas, mas a dependência química é um assunto extenso demais e mereceria um texto exclusivo. Sendo assim, o que cabe discutirmos é que muitos dos princípios, valores e moral que construímos ao longo da vida podem sim ser deixados de lado quando observamos algumas oportunidades de sucesso e/ou prazer com a possibilidade de mínimo esforço. Nossas experiências de vida podem sim modificar boa parte de nosso aprendizado. Alguns princípios podem parecer desvantajosos quando retardam a obtenção de alguns privilégios. Ainda mais em nossa sociedade que preza tanto pela ascensão social e econômica como forma de expressão do sucesso.

Por mais que a criação dos filhos seja muito similar para todos, as vivências de cada um levam a caminhos distintos. Mesmo gêmeos univitelinos podem construir vidas muito diferentes, inclusive no âmbito da orientação sexual. O ambiente ao redor ajuda a selecionar os caminhos de forma similar à atuação da evolução no curso das espécies. A vida é da ordem do imprevisível por não sabermos a que circunstâncias as pessoas serão expostas.

Claro que cada caso é um caso e é sempre importante investigar todos os aspectos. As relações sociais e com o mundo que nos cerca ajudam a nos definir e nortear nossos caminhos ao longo da vida. O importante é analisar os motivos que levam as pessoas a trilharem seus caminhos ao longo da vida para que possam ser modificados quando necessário. Com ajuda, lidar com os problemas e combater os preconceitos sociais pode ser menos doloroso.

Psicólogo Clínico, Analista do Comportamento e especialista em Transtornos Mentais e Dependência Química.
CRP 16/2794