A Profecia Autorrealizadora Cotidiana

16-03-30-o-tarot-preve-o-futuro

Você alguma vez já parou pra prestar atenção que há muitas histórias contadas que envolvem profecias, seja na literatura, cinema ou na sabedoria popular? O que normalmente acontece nesses casos é que a profecia tende a ser cumprida. E já parou pra pensar o porquê disso? E na vida real, existem profecias?

Desde o Oráculo de Delfos com histórias como a de Édipo e chegando a Matrix e Harry Potter, ouvimos muitas histórias sobre profecias e destinos a serem cumpridos. Na tragédia grega, Édipo estava fadado a matar seu pai e casar-se com sua mãe. Neo, personagem central do filme Matrix, deveria ser o escolhido para salvar a humanidade na guerra contra as máquinas. Na saga Harry Potter, ele era o menino bruxo que estava fadado desde o nascimento a derrotar o vilão ou a morrer no processo. Todos eles acabam por tomar as profecias e seus destinos como certos. E às vezes essas premonições são ditas em forma de maldições, quando possuem características funestas. Mas o porquê disso vai muito além dos motivos sobrenaturais que supostamente regem as profecias.

Em psicologia, existe um termo chamado Profecia Autorrealizadora que se refere à tendência da pessoa a quem foi destinada uma profecia de assumi-la como verdadeira e tornar seu destino real. Essa tendência é o que torna tão atrativo esse recurso na construção de uma história. Ao se inserir uma profecia o personagem parece que ruma a realizá-la. O mesmo recurso também pode ser adaptado e utilizado quando o personagem sabe seu futuro por alguém que o conta depois de ter viajado no tempo. Parece que saber o futuro nos encaminha para ele. Mas será que isso é exclusivo do campo da fantasia?

A questão é que esse recurso fantástico é uma forma da arte usar eventos da vida cotidiana de forma lúdica. No dia a dia, podemos ver o tempo todo as profecias autorrealizadoras. Às vezes, professores dizem a alunos que eles não passarão de ano; pais dizem aos filhos que nunca sairão da mediocridade, que são imprestáveis, até chegam a escolher um para investir em detrimento do outro; ou mesmo cônjuges que humilham seus companheiros e os declaram indignos de seu amor, mesmo que não abram mão do matrimônio. Dependendo da forma como as noções de autoestima – capacidade de sentir-se bem consigo mesmo – e autoconfiança – crenças de que você mesmo tem habilidades práticas para se destacar – da pessoa foram construídas ao longo da vida, muitos podem acreditar nessas duras e (a princípio) nada verdadeiras palavras e torná-las reais.

Quando é dito no senso comum que pensamento positivo atrai coisas boas e que pensamentos negativos atraem problemas, não é algo fantástico ou mesmo digno de um “Segredo” de livro. Tampouco é algo necessariamente metafísico. Essa sabedoria popular está bem fundamentada na construção do indivíduo. Há uma tendência de que pais presentes em uma família com uma linha de pensamento comum tenham filhos que sigam essa linha. Uma família próxima, presente e unida em um ideal tende a propagar esse ideal. Pais que torcem para um time de futebol ou praticam uma religião específica tendem a ter filhos que se adequem a essas mesmas práticas. Até por conhecerem pouco para além desse ambiente e terem uma boa relação com o retorno que há em pertencer à família que admira. Dessa forma, também há a propensão de um filho, fruto de um pai que vê sua vida arruinada por ter que casar cedo só por ter engravidado sua namorada adolescente e que desconta sua raiva nesse filho amaldiçoando-o de ser o motivo de todos os seus problemas, acredite no que ouve durante sua vida e se sinta esse arauto da desgraça. Palavras podem se tornar realidade dessa maneira, pois a partir do momento em que você acredita no que te é dito repetidas vezes ao longo de sua vida, pode assumir para si esse tipo de fala como verdade absoluta.

Sendo assim, a função desse texto é só uma: lançar luz às nossas práticas. Por trabalhar como psicólogo clínico vejo muito desse problema. Pessoas que acabam acreditando ser menores e imprestáveis por ouvirem esse tipo de coisa a vida inteira. É extremamente difícil desfazer esse tipo de crença. E o sofrimento gerado por ela chega muitas vezes a extremos, como o suicídio. Se este texto puder servir a algo, que seja para que reflitamos sobre nossas práticas e deixemos as profecias e maldições apenas para a ficção e a fantasia, pois os danos causados por esse tipo de atitude são um dos maiores males que podemos exercer. Pode marcar uma vida toda, até gerações e povos inteiros com um sofrimento simplesmente desnecessário.

Psicólogo Clínico, Analista do Comportamento e especialista em Transtornos Mentais e Dependência Química.
CRP 16/2794