Que tipo de…você é?

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“Que tipo de casal vocês são?”. Essa pergunta me foi apresentada de forma angustiada, por uma cliente em um dos nossos atendimentos. O questionamento foi feito pelo profissional contratado para filmar seu casamento. Pensamentos negativos e aversivos podem surgir quando nos deparamos com a ausência de resposta imediata para algo que não deveríamos sequer ter dúvida.

Confesso que eu também fui impactado pelo questionamento, não apenas em relação ao tipo de casal que formo com minha esposa, mas também pelo tipo de profissional, de filho, de amigo ou de irmão que sou.

Nossos ambientes e as respectivas interações nos expõem a muitos estímulos que nos ajudam a compor nossas ações em cada contexto ou relação. Por exemplo: um casal pode ser “nerd” (de forma não depreciativa), se algo marcante na relação for o cinema, horas assistindo a seriados ou compartilhando literatura de histórias em quadrinhos. Outro casal pode se descrever como “fitness” por ter a atividade física e alimentação saudável como característica evidente na relação.

Em alguns casos podemos viver sem identificar os comportamentos que nos caracterizam e tão pouco os motivos que constroem como somos, e isso torna uma pergunta aparentemente simples em algo extremamente desconfortável em princípio. Assim como aconteceu com a minha cliente, e consequentemente comigo.

Mas confesso que procurar as respostas e descobri-las pode ser algo perigoso em alguns casos, até mesmo para um psicólogo, que no imaginário popular é o detentor de respostas e de um equilíbrio emocional ímpar e acima do encontrado no restante da população. Ah, se fosse assim!

A verdade é que nossa rotina, seja de ócio ou de trabalho árduo, nos afasta da autopercepção e da autocrítica. O resultado é que no fim das contas não nos conhecemos suficientemente para controlarmos nossas vidas e acabamos apenas indo, como se não fizéssemos questão de saber quem somos.

Se você já respondeu “indo” para a pergunta “Como vão às coisas?” fique atento! Você pode estar deixando a influência das circunstâncias e de seus relacionamentos te guiarem!

O aforismo grego “Conhece-te a ti mesmo” pode ser um estímulo relevante para quem deseja encontrar respostas sobre si e descobrir como pode perceber o que é e como se sente em relação às próprias emoções. Por que determinada refeição é a sua predileta? Quando foi sua primeira experiência com ela? Em quais circunstâncias você costuma comê-la? Qual é a frequência de consumo? Obviamente responder a todas essas perguntas relacionadas ao motivo de gostar de um prato de comida não é tão simples quanto apenas responder “por que sim”, mas pensar nos porquês pode ser essencial para dar maior significado a algo que pode ser tão importante para você. Vamos supor que as perguntas sobre o prato predileto foram respondidas: você conseguiu perceber os motivos e o quanto essa comida é importante pra você? Caso a resposta seja sim, provavelmente suas memórias em relação ao assunto provocaram sentimentos positivos e que merecem ser reforçados. Perceba o quanto de sua história pode estar relacionado a uma refeição. Dê valor a isso!

Se possível, generalize os questionamentos investigatórios para suas relações interpessoais e ambientes com os quais você interage. Tente perceber a importância que suas atitudes têm para outras pessoas, e o quanto atitudes de outras pessoas precisam de valorização para ser mantidas. Perceba a si e aos demais!

Outro aspecto importante para promoção de autoconhecimento é a capacidade de produzir críticas em relação aos próprios comportamentos. Reconhecendo qualidades e defeitos ou erros e acertos de suas ações.

Você ainda se lembra da angústia da minha cliente mencionada logo no início? Pois bem, ao ser exposta ao processo psicoterapêutico ela conseguiu desenvolver uma gama de recursos para responder sobre o tipo de casal que forma com o noivo. Apesar da aflição inicial e dos sentimentos negativos produzidos, ela pesquisou sobre a pergunta dentro da própria relação e a tensão foi se transformando em sensações agradáveis graças às lembranças de momentos marcantes e muito estimulantes para ela, hoje a possibilidade de que tenham um casamento feliz é maior que antes da pergunta ser feita.

Quanto a mim, continuarei buscando minhas respostas, me percebendo, me criticando e tentando me conhecer melhor a cada dia. E você? Que tipo de… você é? Boa sorte nas descobertas e, se achar necessário, será um prazer te ajudar a encontrá-las!

Psicólogo clínico, analista do comportamento e especialista em transtornos mentais e dependência química.

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  • Seani Paiva

    Que texto maravilhoso! Sempre é importante refletirmos sobre nossas atitudes e ações. Realmente, muitas vezes com a correria do dia a dia não paramos para analisar o porquê estamos fazendo determinadas coisas. Acho que textos reflexivos servem como um alerta para pararmos e analisarmos.

  • Hércules Oliveira

    Ei Seani! Obrigado por ter dedicado um pouco do seu tempo para leitura deste texto, e mais ainda por ter deixado seu comentário. Muitas vezes nós sofremos por não conhecermos bem…nós mesmos. É importante criarmos condições para isso.

  • Maila Martins

    Engraçado, me fiz essa pergunta assim que terminei de ler o texto, a autorreflexão foi excelente! Parabéns!