Como identificar e sair de uma Relação Abusiva


Como identificar e sair de uma Relação Abusiva

No dia 10 de abril o participante do Big Brother Brasil Marcos foi expulso do programa por manter uma relação abusiva com Emilly. A participante reagiu chorando muito e justificando os atos dele dizendo que ele “só perdeu um pouco a cabeça”, mas que não faria nada contra ela. Afirmou que conversaria com ele a respeito quando saíssem, pois não queria prejudicá-lo no programa.

Que mulher burra, né?

Pois é, esta é a reação de grande parte das pessoas quando conhecem ou convivem com uma mulher que sofre algum tipo de violência no relacionamento. Afinal, está na relação porque quer, não é mesmo? Então deve ser porque gosta…

Só que não!

O que então mantém a relação abusiva?

Um relacionamento abusivo normalmente não começa desta forma. O parceiro pode no início se mostrar atencioso e carinhoso. Entretanto, de forma gradativa, vai criando uma relação de poder que gera na vítima culpa pelos problemas da relação.

Sentimentos de falta de capacidade, inferioridade e baixa autoestima, impedem a pessoa de perceber o parceiro como um agressor, passando a acreditar estar errando e precisar melhorar para ser boa o suficiente para o “companheiro”.

O abusador exerce tamanho controle por meio de chantagens, humilhações e exigências, que a vítima acaba não conseguindo agir à sua maneira por medo de contrariá-lo e sofrer represálias. Passa a criar justificativas como:

  • “Foi só um momento ruim”;
  • “Ele estava nervoso porque…”;
  • “A culpa foi minha, eu que provoquei”;
  • “Ele não teve a intenção”;
  • “Ele estava bêbado”.

Mesmo que a vítima venha a identificar o abuso e deseje romper a relação, pode sentir motivos para continuar, como:

  • O medo do futuro sem o outro;
  • Medo da reação do agressor;
  • Esperança de que o parceiro mudará;
  • Crença de que a violência não é intencional;
  • Dificuldade e vergonha de admitir ser vítima de uma relação abusiva;
  • Falta de apoio social (“Se continua na relação é porque gosta de apanhar”).

Existe normalmente um ciclo de ameaças seguidas por agressão, culpabilização da vítima, justificativas pelo ato, pedidos de perdão, mudanças de comportamento e promessas que levam o abusado a acreditar que tudo será diferente. Isso acaba mantendo a relação até o retorno da tensão inicial que leva a todo o restante do padrão de comportamento abusivo.

Tipos de violência

Existem várias formas de violência que caracterizam uma relação abusiva, como:

  • Violência física: tapas, empurrões, socos, mordidas, chutes, queimaduras, cortes, estrangulamento, tirar de casa à força, amarrar, arrastar, arrancar a roupa, abandonar em lugares desconhecidos, omitir cuidados e proteção contra perigos evitáveis…
  • Violência sexual: estupro, exigência de sexo como pagamento de favores, negação do direito de usar anticoncepcionais ou proteção contra DST’s, aborto forçado, mutilação genital, prostituição forçada…
  • Violência psicológica: insultos, humilhação, deboche, desvalorização, chantagem, afastamento de amigos e familiares, ridicularização, manipulação afetiva, negligência, ameaças, privação da liberdade, críticas pelo desempenho sexual.
  • Violência econômica ou financeira: roubo, controle do dinheiro, destruição de bens, recusa de pagar pensão alimentícia ou gastos básicos para a sobrevivência do núcleo familiar.

Como identificar uma relação abusiva

Pode ser difícil, pois nem sempre ocorre de forma explícita e com agressões físicas, mas por meio de comportamentos que podem a priori não ser interpretados como agressivos.

São exemplos de atitudes abusivas “sutis”:

  • Faz piadas e debocha de você;
  • Impede que saia com amigos e familiares e te coloca contra eles;
  • Exige senhas e manda excluir pessoas das redes sociais;
  • Vigia constantemente e a acusa de traição sem motivos;
  • Ameaça se matar ou te chantageia caso queira romper a relação;
  • Segura com força, empurra ou sacode;
  • Chuta, quebra e derruba coisas para te intimidar;
  • Manda tirar maquiagem e controla suas roupas;
  • Faz você se sentir inferior e acreditar que é uma benção ele gostar de você, pois ninguém mais gostará, que está sempre errada e não o merece;
  • Não demonstra afeto em público, diz ter vergonha de você;
  • Ameaça te largar caso não o satisfaça sexualmente;
  • Faz você se sentir culpada por se sair melhor em algo;
  • Te convence de que merece o que ele faz;
  • Distorce fatos te deixando em dúvida sobre sua memória ou sanidade;
  • Força atos sexuais que te causam desconforto ou repulsa.

Se você identificar atitudes como as acima na sua relação, pare e reflita:

  • Ele costuma te culpar pelas ações dele?
  • Jura que não fará novamente e implora perdão?
  • Depois disso se torna repentinamente carinhoso e diz que mudará?
  • Pessoas próximas acham que a relação não te faz bem?
  • Você precisa constantemente esconder ou justificar os atos dele?
  • Depois do início da relação você se tornou infeliz e chorosa?

Como agir para sair de uma relação abusiva

Caso se perceba numa relação abusiva busque ajuda.

Não acredite nas promessas e que o relacionamento um dia mudará para melhor. Por mais que você ame, quem te maltrata não tem condições de manter um relacionamento saudável e te fazer se sentir bem.

Busque apoio nas pessoas que te amam e que você confia. Abra a situação, diga como se sente e permita que te ajudem a enfrentar o problema.

Além de pessoas queridas pode ser importante buscar acompanhamento psicológico para te auxiliar a enfrentar e a sair da situação.

Não aja sozinha, dependendo do perfil do abusador pode ser perigoso. Então, quando encontrar apoio e se sentir preparada e segura para agir, rompa a relação.

Você também pode denunciar para a Central de Atendimento à Mulher discando o número 180 ou em uma Delegacia da Mulher, principalmente caso ele te persiga ou ameace após o rompimento.

E depois?

Entenda que você não tem culpa pelo abuso ou por manter o relacionamento: a culpa nunca é da vítima. É muito difícil perceber que a pessoa que você ama a violenta, por isso normalmente é preciso tempo para conseguir sair da situação.

Pode demorar até recuperar sua autoestima e entender que os defeitos apontados e as críticas que recebia eram fruto de tentativa de controle e coação, não verdades. Tente voltar a enxergar suas qualidades e a valorizar seus pontos positivos.

Isso pode ser muito difícil num momento de tamanha fragilidade, portanto, não deixe de buscar ajuda!

Psicóloga clínica, analista do comportamento e especialista em dependência química. Trabalho em clínica para tratamento de transtornos psiquiátricos e dependência química e em consultório particular com atendimento a crianças e adultos.

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