Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH

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Provavelmente você já deve ter escutado alguém dizer a seguinte frase: “Ah, esse menino é hiperativo!” se referindo a uma criança agitada e inquieta. Mas será que toda criança com esse perfil é realmente hiperativa?

Antigamente esse tipo de criança era chamado de “pestinha”, “espoleta”, “sem limites” ou até de mal educado mesmo. Com a disseminação do conhecimento sobre o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) de repente passamos para o polo oposto, e estas crianças antes tidas como “levadas” passaram a ser, em sua maioria, nomeadas pela sociedade como hiperativas.

Porém, nem todo indivíduo hiperativo possui TDAH, por isso é importante que as pessoas recebam mais informações acerca do transtorno para que possam ser cautelosas ao fazer tal tipo de afirmação, além de poderem reconhecer realmente os sinais de tal diagnóstico, já que muitas vezes crianças portadoras do transtorno, mas que não apresentam os sinais de hiperatividade passam despercebidas, como veremos adiante.

Mais que a população, os próprios profissionais da área da saúde precisam de maior conhecimento sobre tal condição, que mesmo nesse meio ainda sofre com preconceitos e mitos.

O que é então o TDAH? É um transtorno neurobiológico no qual interagem fatores genéticos, neuroquímicos e ambientais. Tem início na infância, antes dos doze anos de idade, mas pode continuar a acompanhar o indivíduo por toda sua vida. Sua ocorrência pode ser identificada em cerca de 5% da população mundial infantil e 2,5% da população adulta. Caracteriza-se por sintomas de desatenção, inquietação e impulsividade que são identificados por meio de avaliação clínica, pois não existe hoje nenhum exame que sozinho possa confirmar o diagnóstico.

Indivíduos que apresentam déficit de atenção normalmente têm dificuldade em prestar atenção a detalhes, acabando por cometer erros por descuido.  Consideram difícil manter a atenção em atividades lúdicas e podem parecer não escutar quando alguém fala com eles. Demonstram problemas em terminar tarefas e trabalhos e em organizar suas atividades, perdendo materiais necessários para a execução das mesmas e algumas vezes esquecendo-se de realizá-las. Geralmente evitam se envolver em tarefas que exijam esforço mental por muito tempo, sendo facilmente distraídos por estímulos externos e pelos próprios pensamentos, a não ser que se trate de uma atividade que apreciem muito. Uma criança com déficit de atenção pode, por exemplo, passar horas jogando videogame se esta for uma atividade prazerosa para ela. Em compensação, pode considerar muito difícil ler algo que não seja de seu interesse ou prestar atenção em uma aula.

As pessoas com características de hiperatividade e impulsividade são bastante inquietas, apresentando dificuldades em permanecerem paradas ou sentadas por muito tempo. No caso de crianças, correm ou sobem nas coisas; já nos adultos podem surgir sensações de inquietude.  Nas situações em que precisam permanecer sentados normalmente levantam muito ou se remexem na cadeira e batucam mãos e pés. Têm dificuldade de vivenciar os momentos de lazer calmamente, agindo de forma bastante agitada. Podem falar demais, respondendo perguntas antes mesmo de serem concluídas e com dificuldades para aguardarem sua vez, podendo vir a se intrometer em conversas alheias.

Existem pessoas com o transtorno que apresentam predomínio do déficit de atenção sem ter muitas características de hiperatividade, enquanto em algumas a presença da hiperatividade é marcante, sem necessariamente ter muitos sintomas de desatenção. Outras apresentam o tipo combinado, tendo tanto sintomas de desatenção quanto de hiperativade.

Alguém pode ler isso e pensar: “Então eu devo ter TDAH, porque me identifiquei com várias dessas características!”. E sim, provavelmente todas as pessoas se encaixam, em maior ou menor grau, em algumas delas, por isso é importante entender que para se configurar como um transtorno é necessário que elas sejam tão frequentes e intensas a ponto de prejudicar a vida de quem as apresenta.

O tratamento envolve diversas abordagens, como intervenções psicoeducacionais, psicoterapêuticas, psicopedagógicas, psicofarmacológicas e reabilitação neuropsicológica; sendo essencial a participação da família e da escola.

Com tratamento adequado é possível levar uma vida sem maiores problemas, mas sem tratamento o transtorno pode trazer vários prejuízos para o indivíduo, como em seus relacionamentos, em sua autoestima (um dos aspectos bastante afetados) e na vida escolar/profissional (configurando-se como fator de risco para baixo desempenho acadêmico e abandono escolar). Por isso é fundamental que o transtorno seja discutido de forma esclarecedora com a sociedade, visando o aumento da qualidade de vida das pessoas com TDAH.

Referências:

Associação Brasileira do Déficit de Atenção. Disponível em: <http://www.tdah.org.br/>. Acesso em 3 de julho de 2016.

Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5. American Psychiatry Association. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. (GOOGLE BOOKS)

Psicóloga clínica, analista do comportamento e especialista em dependência química. Trabalho em clínica para tratamento de transtornos psiquiátricos e dependência química e em consultório particular com atendimento a crianças e adultos.

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